Sandro Damasceno_102

Diferentes atores da sociedade discutiram os avanços e os desafios da educação inclusiva no país. Atendimento Educacional Especializado e formação docente foram destaques

“Se a pessoa com deficiência não estiver na escola, nada acontece”, disse Keila Leite Chaves, fundadora do Campe (Centro de Apoio a Mães dos Portadores de Eficiência), ao defender que só a demanda é capaz de impulsionar a criação das condições para que a educação inclusiva seja realidade. Ela foi uma das palestrantes do Seminário Nacional Desafios para a Garantia do Direito à Educação Inclusiva, realizado em 23/09, em Brasília. O evento foi uma das principais atividades da 12ª Semana de Ação Mundial: Direito à Educação Inclusiva – por uma escola e um mundo para todos. A formação continuada e o AEE (Atendimento Educacional Especializado), que deve ser oferecido a todos os estudantes com deficiência da creche à pós-graduação, foram os principais temas debatidos.

A ausência do AEE em todas as escolas foi duramente criticada por Keila. A principal queixa da fundadora do Campe é a distância percorrida por mães e estudantes para terem acesso a este serviço.  De acordo com o Censo Escolar de 2013, apenas 12% das escolas possuem salas de recursos multifuncionais para a oferta do AEE.

Hoje, muitas secretarias insistem em criar centros específicos para o AEE nas regiões centrais de seus municípios e estados. Por conta dessa escolha, muitas famílias percorrem longos trajetos para que seus filhos sejam atendidos. “Isso não é acessibilidade! Muitos saem do interior rumo aos grandes centros e acabam passando o dia todo fora de casa”, reclama. A solução para o problema, aponta Keila, seria todas as escolas oferecerem o AEE para que o atendimento ocorra próximo à residência dos estudantes.

Além de Keila, pessoas de diferentes regiões do país também participaram da discussão: Antônio David Sousa de Almeida, estudante universitário de Fortaleza – CE, Maria das Dores de Lima Nunes, diretora da EE Clarisse Fecury, Rio Branco – AC, Ielva Maria Costa de Lima Ribeiro, professora da Creche Municipal José Calil Abuzaid, São Gonçalo- RJ , Cristiane Sousa Costa, gerente de educação inclusiva da Semec de Novo Hamburgo – RS, Suzana Maria Brainer, coordenadora geral de Articulação da Política de Inclusão nos Sistemas de Ensino da Secadi e Maria Teresa Eglér Mantoan, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e coordenadora regional do Fórum Nacional de Educação Inclusiva.

Inclusão requer não apenas formação, mas disposição

O acesso ao AEE não é a única dificuldade enfrentada pelas pessoas com deficiência e suas famílias. A qualidade deste serviço também tem deixado a desejar. Davi, estudante do curso de pedagogia da UECE (Universidade Estadual do Ceará), questiona a falta de fiscalização e de formação dos profissionais que fazem esse atendimento. “Minha professora diz que eu não posso ser professor, que não ia dar conta. Ela é mais contra do que a favor à inclusão”, lamenta.

A professora Ielva reconhece que de forma geral o cotidiano escolar segue sem reflexão, pesquisa, avaliação das práticas e, principalmente, sem o desejo de transformação. Para reverter esse quadro, ela acredita que só a institucionalização do AEE no PPP (Projeto Político Pedagógico) pode fazer com que a escola se aproprie de seus princípios e objetivos.

Sobre a resistência de muitos professores em atender alunos com deficiência, Ielva lembra que a educação inclusiva é um direito. “Precisamos decidir quem quer trabalhar, e quem não quer. Quem quer fazer, procura meios para conseguir, quem não quer, busca desculpas”, critica.

Cristiane concorda com Ielva e diz que é preciso disposição para buscar a melhor forma de atender as necessidades de cada aluno e fazê-lo avançar. Em Novo Hamburgo, das 77 escolas municipais de Educação Básica, 45 têm sala de recursos, segundo ela. “Ainda não podemos dizer que a inclusão é total, mas estamos trabalhando arduamente para isso”, explicou a coordenadora, que aposta no diálogo com a família para que cada escola consiga desenvolver as potencialidades dos seus estudantes.

De acordo com Suzana, há em todo o Brasil 30 Cursos de letras/libras, com 2.250 vagas para formação de professores, tradutores e intérpretes de Libras, além de 98,5 mil vagas de Especialização e Aperfeiçoamento para professores em educação especial.

Rotatividade dos professores dificulta continuidade na formação docente

A formação dos educadores em serviço foi outro tema abordado no seminário. A diretora EE Clarisse Fecury apresentou um vídeo produzido em 2010 pelo Instituto Rodrigo Mendes, que descreve as ações realizadas na escola desde 2004. Referência em inclusão, a escola já foi uma das ganhadoras do Prêmio Experiências Educacionais Inclusivas do Ministério da Educação.

Em sua fala, Dora lembrou que o acolhimento das diferenças começa no projeto político pedagógico da escola e explicou que a discussão sobre inclusão está presente nas ações de planejamento, na formação em serviço, na prática em sala de aula e no processo de avaliação dos estudantes. Entretanto, apesar dos avanços, a diretora apresentou algumas dificuldades enfrentadas por ela e outros gestores escolares de todo o país: a rotatividade de professores. A maioria dos docentes que aparecem no vídeo já não atuam mais na escola. “Fazemos todo um trabalho de formação, e no ano seguinte precisamos começar do zero com os docentes que chegam. As barreiras são muitas, mas não podemos desistir”, fala a diretora.

Estudiosa da área da educação inclusiva há quase 30 anos, a professora Mantoan diz que houve muitos avanços desde então, sobretudo no número de pessoas que pesquisam o tema. Ao mesmo tempo, ela lembra que “os desafios são grandes, mas não há tempo para lamentar”.

Quando o tema é inclusão, “as universidades são mais resistentes do que as redes de ensino”, argumentou.  Ela criticou os cursos de formação inicial de professores, que tem como referencial sujeitos ideais, que não existem. “Quando falamos em inclusão nós estamos falando de casos únicos”, explicou ao defender a ampliação da produção de pesquisa sobre estudos de casos e experiências locais.